Onde as pedras riem, escondidas, da própria piada.

sábado, 28 de abril de 2012


Como num estalo em câmera lenta. De qualquer forma, não houve um momento de transição. A consciência a domava de novo, lhe cuspia na cara e lhe exibia quão cretino era aquele ser-humano. Ela, a grande culpada.
Uma figura disforme e grosseira, contemplando as expressões contorcidas. Se ver deformada no espelho era pedir para não chorar mais. Jorrava água dos olhos; rio envenenado. Finalmente pôde pôr em palavras.
Eu não gosto do meu pai. Sim, voltava-se contra sua própria carne, contra quem lhe deu a vida e sustento. Sentia um terror tão grande que não conseguia abraçá-lo sem sentir repulsa. A paciência se esgotava assim que ele lhe dirigia a palavra. Sua mera presença era um fardo.
O pai errara. Mas ela se vingava. Queria pisá-lo até matá-lo, cuspir na sua cara e amaldiçoar um dos responsáveis por sua vinda ao mundo.
Dele, queria apenas o dinheiro, que ele tão livremente esbanjava com os amigos e com as putas. Eram esses, aliás, os tipos de pessoas que o rodeavam: amigos nojentos e fracassados como ele, e as putas. Ela também era uma. Trocava carinho por dinheiro.
Me leva para a França, papai. Quero um vestido novo, papai. Fazia cara de meiguinha como se tivesse cinco anos, não 20 arrastados. E conseguia. E o nojo voltava.
Morou com ele por três meses, por necessidade. E fazia questão de jogar isso em sua cara.
Você nunca esteve presente quando eu era criança.
Você me humilhou na frente de todo mundo na minha formatura.
Você traiu minha mãe.
Quando finalmente achou um jeito de sair do covil do lobo, pensando em como pediria o carro para ela, ele decidiu vendê-lo. Dívidas.
Se não gastasse tanto com bar, puta e pescaria teria dinheiro.
E sozinha naquela manhã de sábado, se dando conta de que a venda do carro significava ainda um semestre inteiro morando com a criatura, chorou como nunca.
Chorou para todos os vizinhos, chorou como antes do tempo de saber que era feio chorar alto.
Quer chorar, chora baixo, seu choro incomoda.
A ânsia tomando conta, tinha certeza que a loucura lhe soprava a face. O que lhe dava alguma sanidade, de certa forma.
E veio a consciência, traiçoeira. Talvez nunca devesse ter saído do buraco onde se escondia.
Toda criança nasce um demônio.
Eu sou de uma maldade atávica.

terça-feira, 6 de março de 2012

A pessoa que me tornei

Tem um apego desmedido por dinheiro.
É rude com todos que acha que não precisa. Só agrada quando quer alguma coisa.
Fala mal de pessoas que sequer deu a oportunidade de conhecer, julgando-as pelas aparências e opiniões alheias sobre coisas irrelevantes.
Tem uma necessidade enorme de questionar professores, de achá-los ignorantes, de se sentir superior.
Subestima os outros, quer ser sempre a mais inteligente, a mais talentosa.
Se aproveita de sua posição, conquistada sem o seu próprio esforço, para abusar dos outros.
É preguiçosa a ponto de explorar os que estão a sua volta.
Sente prazer no sofrimento dos outros.
Não tem humildade.
Não tem coração suficiente para gostar de ninguém.
É falsa o tempo todo.
É vingativa e teimosa.
Tem um humor terrível, é dramática e resmungona.
Não sabe ouvir os outros.
Acha que o mundo tem a obrigação de gostar dela.
É piedosa só com si mesma.
Espalha intrigas e ridiculariza todos que puder.
É indiferente aos sentimentos dos outros.
Mantém seus princípios até a primeira dificuldade.
E acha que indo para a igreja todo domingo merece ir para o céu.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mergulha a cabeça na água
e afunda
.
.
.
Sempre teve medo de azulejo escuro
no fundo da piscina.
Faz do corpo pedra
casco de tartaruga grande.
Lá embaixo tudo é silêncio
Leve e azul
E a solidão
E o corpo contraído de ódio
todo
se
di
lui
.
(Pode gritar, que ninguém vai te ouvir)
Até o ar rarear
E o instinto a fazer subir,
mais forte que sua vontade de se afogar
Ofegante e obscena.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quer chorar, chora baixo.
Sua tristeza incomoda.                
Os olhos ácidos.
Boca áspera e pequena.
E o rosto, que não deixa ninguém lhe desviar a atenção. Coberto de sebo e em interminável erupção, cuspindo bactéria e glóbulos brancos. Vermelho, espinhento e herpético.
Meus olhos aprenderam a chorar pouco e mudo.
Minha pele não aprendeu a chorar invisível. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

            I close my eyes and the book. I’ve come to a point that I can’t satisfy myself with someone else’s imagination – I need to make it myself.
            I see a desperately passionate vampire, charming and cherish without being picky. As I can’t walk all by myself, he’s a mixture of all the cool vampire stories I’ve read – Amadeo! -, the manga’s main characters, the beloved Mr. Darcy and, at last, my own little experience.
          Our story is like a puzzle, and all I create are scenes that end up getting together in the heat of the moment, and moved whenever I wish.
            My mind is cinematographic – a romantic and pretentious thought.
        I’m not myself either. I can never be, as I haven’t apprehended my own likeliness, despite the full-time I spend with me. Actually, the little I know about me makes me very unhappy, and all I can see is a cry-baby, stubborn, immature, stupid girl, as far as possible from the person she aims to be.
            (The fictional Raíssa is more sensible and shy, though.)
            On the very next moment, however, I switch personality and get all seductive and sexy. A bizarre theatre mask, an imitation of human and woman that only works out in my deepest sweet thoughts. I, then, turn my eyes to the real people I’ve met, and the thrown away chances I’ve had.
            Right now, while I’m still bewitched – enchanteuse? –, I can only think of the handsome French guys that paid me attention.
            - Tu es jolie – Il m’a dit.
            I tremble and get all flustered as well, but instead of just “merci”, I say
            - Toi aussi.
            without immediately regretting.
            And that Portuguese that played the harmonica to me – I’d get along with him ‘til the very last moment, and wouldn’t say goodbye.
            I kiss him in the cheek, yet wishing it was somewhere else, and give him my phone number, though it looks awkward even in my imagination.
            I open my eyes and see a bunch of empty phrases written down in a poor wrong English, a boring class, and a lonely girl.
            Why can’t I write and develop my stories properly?
            They belong only to me – they are completely mine, and not a part of me wants to share it.

domingo, 29 de maio de 2011

Micro-contos

Volta para casa
Um letreiro: Motel Beijo-Beijo, seguido de mato, poeira e James Brown.
- Vamos honrar o nome do motel.
Dá um beijo. Ganha outro.
- Pronto, vamos embora agora.
Resta pouco romantismo para motéis sem estrela - penso, antes de dormir com a cabeça no vidro.

Visita
- A gente veio pegar fruta-do-conde.
- Não querem ficar para almoçar?
- Não, só a fruta mesmo.
Sinceridade é uma doença hereditária.

Casamento
Olhar descaradamente para um primo distante bêbado (até os dois estarem sóbrios).
Se sentir na época do Império.
Dançar o twist vergonhosamente.
Pegar docinhos com o prato de jantar.
Ficar atrás para mostrar que não liga para o buquê.

terça-feira, 19 de abril de 2011

            Quando passou a se tocar sem pudor, com a interminável bagunça de seu quarto como testemunha, deixou de sonhar com amores e príncipes castos e respeitosos, em que mesmo a boca é pouco requisitada, mas o coração imprescindível.
            Mais realista, que seja, porém mais torpe, e suas borboletas de estimação a abandonaram envergonhadas, como se dissessem: “Não precisa mais de nós”. Com o tempo, romances de quadrinhos, desenhos que diziam “eu te amo” não mais comoviam – pois elas já se foram, e ela se tornara imune ao seu revoar.
            Difícil ou fácil, só os muito ingênuos oferecem coração de bandeja, e nem as pessoas que sentem aprovam isso. Àqueles resta recuperar o órgão carcomido, sempre em carne viva, ou então viver normalmente com um vácuo no peito, que de vez em quando traz à memória um “tum-tum” que vem como uma coisa infantil, a ser ultrapassada e superada.
            Como substituto, veio um rancor e um ódio que, creio, estavam apenas adormecidos, uma maldade tão iminente que se apossou de todos os arrepios que sentira e iria sentir.
            O primeiro beijo foi mecânico e estranho, como se fosse reação natural, dois vermes que se tocam e se enlaçam como numa ameaça, um movimento estúpido em espiral que bem podia ser de uma máquina de roupas.
            O segundo foi sumariamente calculado, como se seguisse a fórmula de sedução do vazio, em que a mecânica é mais sofisticada e escondida, mas não vai embora nunca, nunca mais.
            Começou a tomar gosto pela dança sem música e sem sentido, a admirar homens de barba, a esperar como um cão a aprovação-combustível, satisfeita com o discurso milenar que lhe cuspia na cara: “Mastigável; pode continuar andando que ainda não chegou ao grupo das imprestáveis.”
            Na terceira vez, sequer havia uma cabeça pensante a questionar e incomodar – aliás, havia uma, não sua, que tampouco estava acima do pescoço. Na terceira, a boca sequer era o objetivo, mas como ainda não se acostumara a andar sobre o vento sem nada, como um corpo ambulante, puta sem pagamento, estranhou, bloqueou, reclamou, espantou e, enfim, agradeceu – com um quê ofendido – a desistência.
            Agora anda por aí, propagando amor-construído, amor-opção, caçando já sem voz – pois a vendeu para a bruxa quando já não havia príncipe – e sem razão, como um braço isolado do resto que pensa que conseguirá, com uma rede rasgada, capturar uma bela borboleta – uma que se disponha a voltar e voar com animus próprio ao seu redor.
            A única coisa que lhe resta, estúpida, é ser esposada, assim como a função de uma costela é ser comida, e ela está com tanto medo e tão cega que só quer se esconder na multidão de roupas, sapatos, livros e folhas: “só quero com as borboletas, sem por um pé para fora daqui; elas que pousem na rede – e não se demorem”.

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