Como num estalo em câmera lenta.
De qualquer forma, não houve um momento de transição. A consciência a domava de
novo, lhe cuspia na cara e lhe exibia quão cretino era aquele ser-humano. Ela,
a grande culpada.
Uma figura disforme e grosseira,
contemplando as expressões contorcidas. Se ver deformada no espelho era pedir para não chorar mais. Jorrava água
dos olhos; rio envenenado. Finalmente pôde pôr em palavras.
Eu não gosto do meu pai. Sim,
voltava-se contra sua própria carne, contra quem lhe deu a vida e sustento.
Sentia um terror tão grande que não conseguia abraçá-lo sem sentir repulsa. A
paciência se esgotava assim que ele lhe dirigia a palavra. Sua mera presença
era um fardo.
O pai errara. Mas ela se vingava.
Queria pisá-lo até matá-lo, cuspir na sua cara e amaldiçoar um dos responsáveis
por sua vinda ao mundo.
Dele, queria apenas o dinheiro,
que ele tão livremente esbanjava com os amigos e com as putas. Eram esses,
aliás, os tipos de pessoas que o rodeavam: amigos nojentos e fracassados como
ele, e as putas. Ela também era uma. Trocava carinho por dinheiro.
Me leva para a França, papai.
Quero um vestido novo, papai. Fazia cara de meiguinha como se tivesse cinco
anos, não 20 arrastados. E conseguia. E o nojo voltava.
Morou com ele por três meses, por
necessidade. E fazia questão de jogar isso em sua cara.
Você nunca esteve presente quando
eu era criança.
Você me humilhou na frente de
todo mundo na minha formatura.
Você traiu minha mãe.
Quando finalmente achou um jeito
de sair do covil do lobo, pensando em como pediria o carro para ela, ele decidiu
vendê-lo. Dívidas.
Se não gastasse tanto com bar,
puta e pescaria teria dinheiro.
E sozinha naquela manhã de
sábado, se dando conta de que a venda do carro significava ainda um semestre
inteiro morando com a criatura, chorou como nunca.
Chorou para todos os vizinhos,
chorou como antes do tempo de saber que era feio chorar alto.
Quer chorar, chora baixo, seu
choro incomoda.
A ânsia tomando conta, tinha
certeza que a loucura lhe soprava a face. O que lhe dava alguma sanidade, de certa forma.
E veio a consciência, traiçoeira.
Talvez nunca devesse ter saído do buraco onde se escondia.
Toda criança nasce um demônio.
Eu sou de uma maldade atávica.